Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

SER A OUTRA

só


Ela é divorciada, na casa dos 30. Ele tem mais ou menos a mesma idade, é casado há anos e  relativamente feliz. Conheceram-se um dia por acaso, pouco a pouco foram partilhando  sentimentos, e por fim a intimidade tornou-se em partilha sexual e de afectos.

Ela preencheu a solidão da sua vida com a presença e o carinho que ele lhe dispensava, quando estava com ele sentia-se uma rainha. Nos momentos íntimos transformava-se num prodígio de erotismo e imaginação, e ele sentia-se realizado, tinha encontrado o complemento ideal para a sua vida de casado, com ela obtinha tudo aquilo que não era capaz de pedir em casa, porque com ela tudo era permitido, sem complexos nem tabus.

Gradualmente ela foi  sonhando ocupar mais espaço na vida dele, as conversas telefónicas que tanto a preenchiam passaram a deixar um vazio quando se despedia com aquele até amanhã, os cafés tomados à pressa no fim da tarde deixaram de ser uma agradável rotina quando o beijo fugaz da despedida lhe sabia a pouco, e ela ficava sozinha e a sentir-se culpada e vazia.

Tinham falado sobre isso logo que a intimidade se instalou, ele não queria que ela se sentisse a outra, mas ela apenas sabia que era a sua eleita. Mas isso fora no início, porque afinal ela era apenas a outra e era assim que se sentia. Sentia-se a outra cada vez que estava com ele e tocava o telemóvel,   ele atendia e falava com a mulher fazendo planos de jantares e de fins-de-semana de que ela nunca faria parte. Sentia-se a outra cada vez que se deitava sozinha na sua cama  e queria estar com ele, sentir o seu calor e aquele aconchego, que ele estaria a dar à mulher.

Ele nunca lhe prometeu nada, nunca disse que ia deixar a família, que aquilo era algo mais que uma relação sexual, sabe que ela está sempre pronta para ele, alguém que dá  colorido e picante à sua rotina mas que não passa disso, porque ele nunca vai deixar a  segurança da sua família, pôr em risco os privilégios de pai babado. Prescindir de  qualquer das mulheres da sua vida para quê, se pode ter ambas?

Agora ela está demasiado presa a ele e àquele sentimento, sente que o ama e que precisa dele, no íntimo tem esperança que ele se decida e que a escolha a ela, porque ela é melhor, mais quente, porque sempre que tem sexo com ele, ele lhe diz que ela é única e incrível. Mas será que ele diz o mesmo à mulher?...

Ela só sabe que agora tem finalmente alguém na sua vida, mesmo que seja em part-time. Mas no fundo, está presa porque tem medo da solidão e qualquer papel secundário lhe parece melhor que nenhum.

Conheço ambos os protagonistas desta história, assisto à carência e frustração dela e à satisfação dele, e abstenho-me de tomar partido.
 

Nai.

publicado por naiguata às 01:14
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22 comentários:
De oamante a 24 de Junho de 2008 às 08:58
Para ele, ela é apenas outra, para ela, ele é o único!
Ele está no melhor de dois mundos, pois complementa a falta de sexo da mulher com a loucura sexual da outra. Não precisa ouvir os seus problemas, não precisa preocupar-se com ela, embora até possa fazê-lo.
Mas os momentos importantes da sua vida, ele passá-lo-á com a família.
Para ela, ficam aqueles momentos fugidios, os beijos trocados e... a solidão. Ela não pode contar com ele para ajudá-la em nada!
Está na hora de cortar com ele e procurar o homem da sua vida, porque todos temos direito a isso.
É exactamente por achar deprimente estar uma pessoa casada a prender outra, solteira, que não aprovo estes tipos de relação. A mulher sente-se presa, porque pensa não conseguir arranjar outro. O anos vão passando e ela vai ficando mais presa desse pensamento, mas sabemos que hoje isso não será sempre assim.
Para mim, estas relações de tentar obter extra-matrimónio aquilo que se deseja, só funcionam se ambos os intervenientes forem casados.
Aí, gozarão apenas.
De naiguata a 25 de Junho de 2008 às 14:55
Por vezes tentamos ser tão directos que esquecemos que existe algo chamado sentimento. O teu comentario foi directo e incisivo, e assino por baixo, mas onde fica o sentimento?, o amor dela?, o acreditar naquele sonho de viver uma vida com ele?

E depois, será que não há pessoas que preferem estar assim, a viver no lado escuro.. a estarem sozinhas?

Nai.

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